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sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Caderno de espiral


Na minha meninice havia um caderno.
Era um caderno tamanho A4, espiral de arame e páginas azuis
Dentro do caderno havia um tesouro
A letra perfeitamente traçada, redonda e lindamente desenhada
A letra da minha irmã

As páginas azuis tão bem cuidadas, a forma metódica e limpa com que aquelas anotações tinham sido feitas
Eram quase um mito pra mim
Aquele caderno usado e desatualizado, caderno do ano passado,
E por isso mesmo por mim herdado,
Servia-me de inspiração, estímulo e modelo.

Minha ingenuidade de menina dava-me esperanças de um dia ter uma letra tão linda
E um caderno tão admirável.
Movida por esse desejo, muitas vezes pus-me a desenhar aquela letra – sob os protestos da minha mãe – imitando o traço, imitando cada curva, cada volta geometricamente perfeita.
Foi nesse tempo que minha própria letra transformou-se em um desastre, um caos – confirmando as previsões da minha mãe.
Minha metra havia se perdido de mim, talvez fugiu chateada com meu descaso com ela.

Perdi-me entre o desejo de beleza que a caligrafia derramada no papel azul me instigava e a minha própria, de aprendiz de mim mesma.
Meu traçado tornou-se conflituoso e não se podia achar em minha escrita nem a beleza desejada
Nem a minha verdadeira identidade

O tempo encarregou-se de me revelar a beleza que havia no meu jeito de escrever.
Encarregou-se também de me mostrar os caminhos a que me levavam o meu próprio traço.

Nos dias de hoje ando novamente em busca da minha marca, naquilo que escrevo.
Habitando os labirintos da escrita numa segunda língua, muitas são as vezes que perco de vista todo o nexo e sinto uma saudade enorme da beleza.

Em horas assim, procuro dentro de mim aquelas páginas azuis.
Aquela inspiração arredondada, geométrica, nascida da perfeição da letra da minha irmã.
Mergulho fundo em meu coração e vou buscar meu lindo caderno azul, para assim escapar do caos.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Éramos cinco

De repente, entra um vento primaveril, que vem soprando desde o jardim e invade toda a casa e traz com seu cheiro uma saudade de um tempo em que florescia uma amizade, que ainda não sabia o que a vida lhe reservava.

Há exatos vinte anos nos encontramos. Estávamos todas em nosso primeiro dia de aula na universidade. Fazíamos parte do privilegiado grupo dos que passam no vestibular. Éramos meninas entre nossos 16 e 18 anos, cada uma carregando na mochila sonhos e uma boa dose de esperança. Foi nesse momento que nos conhecemos. Foi nesse momento que nasceu essa amizade, que nos presenteou com uma história linda, um passado inesquecível e um presente …bem, do presente falo depois.

Éramos cinco. Cinco garotas muito diferentes e muto parecidas. Foram nossas diferenças e nossas semelhanças que fizeram de nós um grupo peculiar, que não passava despercebido pelos corredores da Universidade. Éramos as garotas do Serviço Social que andavam sempre juntas, sempre rindo, papeando, cantando, às vezes paquerando, às vezes namorando, às vezes apenas estando juntas.

São memórias tão vivas que guardo daquele tempo. Sentimentos tão fortes. Vinte anos se passaram, e muita coisa mudou no mundo e na vida de cada uma de nós. Cada uma seguiu seu rumo, cada uma a seu modo “abandonou” o Serviço Social. Eu fui a primeira desertora, e mudei até de curso. As outras todas se formaram como AS (Assistente Social), mas nenhuma delas seguiu a carreira.

Vinte anos! Exatos vinte anos e eu poderia hoje estar me perguntando o que foi feito de cada uma delas. Eu poderia estar feliz com o surgimento do Orkut, assim eu poderia fazer uma busca e quem sabe localizar alguma delas. Eu poderia até ter uma grande surpresa ao descobrir quem casou, quem não casou, quem teve filhos, quem não teve. Acontece que não vou procurá-las nem no orkut, nem em lugar algum.

… mas essa história eu conto amanhã…

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Livros: apego e desapego meus

Essa é uma longa história, e somado a isso, tenho uma inabilidade inata para a síntese, portanto, prevejo uma narrativa exaustiva, mas preciso verbalizar isso – em breve terei de o fazer em ingles e este terá sido um bom ensaio.

Tudo começou quando eu tinha bem menos que cinco anos de idade. Aos cinco aprendi a ler, antes de frequenter a escola, mas essa é outra história. O que quero salientar é que antes mesmo de saber ler, os livros me causavam grande admiraçao e o encanto da palavra escrita me acompanha desde que me lembro de existir. Por isso, essa história começa nessa época, pois sem esse início nada teria tido o fim que teve.



Muito depois dos meus cinco anos de idade, mais precisamente quando eu tinha onze anos um evento triste marcou um momento de mudança. Estávamos mudando de casa e, como em qualquer mudança, as caixas, pacotes e outras formas de empacotamento ganharam todos os espaços da casa, ao mesmo tempo que muitas coisas que haviam sido guardadas ganharam o status de lixo. Acho que mudança sempre tem esse lado, como se ao mudar de casa renovássemos também nossos conceitos, ou desejássemos nos desapegar de coisas antigas e começar uma nova história no novo espaço. Mas neste caso isto trouxe um resultado inusitado.



Como num filme antigo em que malas iguais causam confusao e trocas insólitas – muitas vezes cômicas – o pacote do lixo era igualzinho a um pacote que continha livros, e nem preciso caixascontra o resto. Lá se foram todos os meus livros desde os primeiros anos de escola, junto com os livros de minha mae. Aquilo doeu tanto, que a única saída possível foi o silêncio. Nao falemos mais nisso, outros livros hao de vir, e de fato vieram, e vao-se os anéis ficam os dedos e assim por diante. Acho que de alguma forma superei aquilo sem muito trabalho, sem grandes elaboraçoes. Acho que até esqueci. Esqueci até o dia que lembrei. Mas por que lembrei? Bem, esta é outra história, muito mais dolorosa e complexa, pelo menos pra mim. Vamos a ela.

capa do Livro do DesassossegoQuando deixei o Brasil, vivenciei a experiência da mudança numa escala ampliada. Selecionar o que levaria comigo, o que deixaria para quando um dia voltasse, o que daria como presente a pessoas queridas, o que usaria para capitalizar e o que seria destinado ao lixo foi um trabalho que levou um longo tempo. Há coisas que sao fáceis de decidir, outras nem tanto. Comecei pelas mais fáceis e de certo modo lógicas, capitalizei o que podia, fiz as vezes de mamae noel for a de época e dstribuí outras tantas coisas, até que cheguei no lote mais difícil: meus livros. Talvez por causa daquele silêncio sobre os livros postos no lixo por engano e pela visao desconcertante do lixo que veio em lugar dos livros, eu tinha desenvolvido um apreço ainda maior pela literatura.
Nessa época eu já tinha formado uma biblioteca pessoal relativamente respeitável, em termos de quantidade, mas além disto, eu tinha adquirido algumas obras que me eram caras, caríssimas, sem preço.
Mais uma vez comecei a difícil tarefa pela parte mais fácil, e selecionei os livros que ficariam no Brasil, aguaradando meu retorno, guardados carinhosamente por uma amiga, que na verdade é uma irma. Assim, os livros que eram queridos, mas nao me eram essenciais ficariam sob a guarda da minha amiga, lado a lado com os livros de outra irma que também tinha deixado o Brasil e feito semelhante selecao. Alguns outros livros ficariam na minha casa, casa da minha mae. Mas havia um seleto grupo de livros que eu nao queria deixar pra trás. Eram ao todo cerca de 200 livros, talvez um pouco menos. Entre eles estavam Fernando Pessoa, Rubem Alves, Saramago, Paulo Freire, dentre outros. Estavam ali livros amados por motivos diversos. Alguns por terem sido autografados por seus autores, que tinham escrito nao uma mensagem generica qualquer, mas uma mensagem pessoal para mim, porque eram autores com quem eu tinha tido algum contato, como Alicia Fernandez, – uma das autoras que mais admiro e respeito – que foi minha professora, por exemplo e cuja mensagem (no autógrafo) tinha um significado profundamente importante pra mim. Outros livros erm amados simplesmente por já andarem comigo há muitos anos e terem presenciado todas as minhas metamorfoses físicas, intelectuais e espirituais. Outros eram fonte de inspiraçao, outros eram mestres sempre presentes, outros eram amigos silenciosos que falavam comigo mesmo que eu nao abrisse suas páginas.

Por mais que eu tente detalhar a importancia que cada um daqueles quase 200 livros tiveram ao longo da minha vida, eu jamais conseguiria verbalizar em plenitude, mas quero apenas expresser ainda que minimamente a extensao do que aquele evento me causou. caixas de mudanca
Um tal volume de livros era uma bagagem pesada demais para quem iria fazer uma viagem internacional, levando já bastante bagagem. Por isso, depois de longa conversa com cada um dos meus amigos de papel, os arrumei em três caixas de modo a estarem protos para viajarem via correio assim que eu mandasse o aviso.
Embarquei no vôo que me pôs no país onde vivo hoje deixando atrás de mim meus livros, sem saber que jamais os veria novamente.
Quando chegou o momento, mandei o aviso pra casa: podem enviar meus livros!
Duas semanas se passaram depois disso e ansiedade me corroía. Todos os dias a hora da passagem do carteiro era o divisor do tempo, como se depois daquela hora o dia perdesse o sentido e eu passasse a esperar ansiosamente pelo dia seguinte. Assim passaram-se vários dias, mais uma semana, mais outra. Os correios brasleiros regstravam o envio da remessa e a entrega aos servicos do Royal Mail, portanto, meus livros estavam em terras de Sua Majestade. Mas por que demoravam tanto? Essa pergunta nao encontrava resposta. O Royal Mail nao conseguia localizar a remessa, e eu me desesperava. Agora a esperança era que as três caixas voltassem para casa, que houvesse algum erro no endereco, alguma falha na entrega, e elas tivessem retornado para o remetente.


Quando eu já nao sabia o que pensar ou o que esperar, veio o momento da verdade. Foi quando caixas poliondasvi um dos pedacos inconfundiveis de uma das caixas, tremulando na mao de um vizinho, que a utilizava para abanar o fogo da churrasqueirinha no meio do quintal, numa tarde fria e triste, que a realidade despencou sobre a minha cabeça. A casa vizinha tinha o mesmo número, diferenciado apenas por uma letra, um bendito A que o carteiro nao viu ou ignorou. Sendo aquela casa uma especie de pensao que acolhia exilados politicos, uma comunidade formada por pessoas de nacionalidades diversas, as quais nem falavam o mesmo idioma – alguns eram inimigos politicos entre si – algumas sequer falavam ingles, nao foi difícil entender que alguém tenha recebido as três caixas acreditando que pertenciam a algum dos outros moradores.
No frigir dos ovos, deixando os detalhes de lado, o fato foi que alguém recebeu as caixas, alguém descobriu que elas nao pertenciam a nenhum morador, alguém decidiu abri-las e sendo o conteúdo inútil, jogou tudo no lixo.
Sim, durante alguns dias eu devo ter passado por aquela lixeira e nao ouvi o sussurrar de Pessoa a clamar que o tirasse dali. Provavelmente passei diversas vezes ao lado da lixeira que guardava um grande pedaço da minha própria vida, sem imaginar o que meus olhos nao eram capazes de ver.



Ao dia da triste verdade, segjuiram-se muitos outros dias, quase todos tristes, melancólicos, alguns revoltados, alguns angustiados, outros desesperados, até que foram chegando os dias conformados, os dias sossegados, e finalmente os alegres.






Muitas coisas já aconteceram depois disso, depois de um longo período em que eu nao sentia vontade de ler, nao queria mais comprar nenhum livro novo, depois de ir ao Brasil e trazer alguns dos livros que tinham sido guardados para a segunda remessa, depois de ganhar de pessoas amadas novas ediçoes de alguns dos livros perdidos, tive o grande privilégio de estar em Fortaleza ao mesmo tempo que Alicia. Falamos sobre perdas, extravios, reencontros. Ela autografou um livro que eu havia acabado de adquirir, e presenteou-me com outro, que além de ser obviamente de sua autoria era um exemplar de seu uso particular, com sublinhados, notas, suas marcas, sua presença. Foi um gesto cheio de significado.



Hoje já nao sofro aquela perda com a mesma intensidade de outrora. Aprendi que os objetos de papel e tinta se foram, mas que o essencial que eles me deram continuam bem dentro de mim. No princípio, eu rejeitava qualquer idéia de repor os livros perdidos, mas hoje tenho planos para algumas reposiçoes especiais, como por exemplo, todos os Pessoas terao de ser substituídos por versoes lusitanas, preferencialmente adquiridas em sebos de Lisboa. Nada de ediçoes brasileiras, nem ediçoes novas. Os da Alicia já foram repostos em grande estilo. Alguns jamais serao substituídos, e nem carecem de o ser. Estes permanecem guardados em mim, porém deixam fisicamente o espaço livre para as novas aquisiçoes, que já se iniciaram há algum tempo.

terça-feira, 27 de junho de 2006

Perfumes

    Ando sem tempo, ando sem inspiração para as crônicas diárias (minha isnpiração anda ocupada). Por esta razão, trago hoje uma crônica antiga, que escrevi em 2005.



Agora há pouco, um vento soprou trazendo consigo um perfume antigo, que estava guardado dentro de minhas lembranças. Inspirei o cheiro familiar profundamente, embora o odor estivesse apenas no vento da minha mente e não no ar onde, imersa, respiro. Uma vez, outra e mais outra. O perfume era tão presente, tão vívido e real que parecia estar mesmo impregnando o ambiente. A saudade por vezes faz destas artimanhas, exala seus cheiros e nos leva a outros tempos e outros lugares.

Montei nesse cavalo alado perfumado, completamente imaginário e totalmente real, e fui longe, muito longe do lugar onde me encontro fisicamente. Fui perto, muito perto de onde estão ancorados meus navios fugitivos. Um cheiro desses não nos visita todos os dias. Não com essa força, nem com essa realidade explícita em seus contornos implícitos. Esse poder de transportar os saudosos, de levá-los onde seus corpos já não chegam, de tocar o que suas mãos já não alcançam, é um poder absoluto e imbatível. Não há força maior que esta, realizar o mais sagrado desejo, sem contudo realizá-lo de fato, enquanto preenche a alma de uma realização que quase toca o real.



O perfume me levou à cozinha da minha infância, muito embora não fosse cheiro culinário que estivesse comigo. Na cozinha da minha meninice encontrei minha mãe, que rapidamente saiu para dar lugar ao meu irmão que fritava uns peixes miúdos que ele mesmo tinha pescado. Mas durou muito pouco a tal fritura, porque logo voltou minha mãe e encheu aquela cozinha com o cheiro magnífico do milho fervendo. Era a canjica que estava quase pronta. Mas o cheiro da canjica só esteve naquela cena, não veio fazer companhia ao outro perfume.

A cozinha antiga era escura, tinha móveis envelhecidos. Era cozinha pobre, cozinha do interior. Era a cozinha da minha casa. Mas a cozinha metamoforseou-se na cozinha da minha mãe, mas de outro tempo. Tempo de menina-moça, menina tornando-se mulher, aprendendo a arte dos sabores...

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Passaram-se muitos dias e aquele cheiro nunca mais voltou. Nem eu acertei o caminho das cozinhas; nem da mais antiga, nem da mais recente. Tinha ficado ali, parada, olhando para mim mesma a brincar de cozinheira, preparando quitutes no meio da tarde. Fiquei tão presa a aquela cena, que dali mesmo tive de voltar. Voltei para onde nunca saí, e pus-me à espera de algum odor mágico que me desse bilhete de viagem. Mas todos os cheiros que me rodearam desde então, foram os cheiros da realidade. Cheiro de chuva quando chove, cheiro de comida sendo preparada, quando a comida está sendo preparada, cheiro de umidade guardada em gavetas, quando se abre uma gaveta que guardou umidade. Cheiros de redundância realística, tão peculiar a tudo que é puramente real.

Talvez seja essa redundância que embriaga algumas mentes e as leva a mundos diversos, causando espanto aos amantes da realidade pura e simples. Embriagados dessa realidade pleonástica, que não fala nada além do que se vê, cheira ou prova, alguns fugitivos seguem rumos oblíquos, ouvem o que ninguém mais ouve, enxergam o que mais ninguém enxerga. Tocam sua música extraodinária e tudo o que os outros ouvem é um amontoado de notas. Ou pintam suas paisagens sublimes e tudo o que os outros vêem é uma tela que se enquadra nesta ou naquela categoria de arte.
Os fugitivos são solitários, ainda que sejam muitos. Ainda que se conheçam e saibam que há outros de sua espécie. Ainda que andem lado a lado, cada um foge numa direção diferente. Ainda que andem de mãos dadas, eles sabem que as mãos dadas sao traços da reallidade redundante da qual fogem. Almas dadas, almas entrelaçadas, isso sim, alguns fugitivos têm. Mas ainda assim, cada fugitivo sabe-se sozinho. Ninguém foge acompanhado.

sábado, 27 de maio de 2006

O retorno da Branca de Neve

Durante alguns anos acostumei-me a identificar-me com o estereótipo da Branca de Neve, especialmente a versão de Walt Disney, com seu vestido misturando as cores básicas, saia amarela, blusa azul com mangas fofas e gola ampla e alta. Os pequeninos, ao me verem usando a vestimenta, faziam-me pensar que eu de fato era uma personagem saída de algum conto, e vivia aquela magia por alguns instantes. Depois era hora de mostrar minha cara verdadeira, vestir minhas próprias roupas e voltar a ser eu mesma, mas não sem ter de responder inúmeras vezes que não, não era eu que tinha me vestido de Branca de Neve. Os pequenos me perguntavam isso quase me pedindo que negasse, para manter viva a doce magia de ter encontrado a princesa em carne e osso em pleno pátio da escola.

Havia sempre uns pequenos mais matreiros e menos afeitos ao mundo da fantasia e que ao contrário dos amantes da fantasia, queriam que eu assumisse firmemente ter vestido uma roupa de mentirinha e me feito passar pela princesinha de cabelos cor de ébano. Ao contrário dos outros, estes queriam ter certeza de que estavam bem lúcidos e que não haviam embarcado nessa coisa infantile de crer na fantasia, na magia dos contos de fadas.

Não sei quem havia embarcado mais profundamente na brincadeira de imaginar, se aqueles que sabendo que se tratava de uma roupa falsa, queriam ter o direito ao sonho ou se os que haviam sonhado de forma tão intensa a ponto de precisar de uma afirmação categorica de que se tratava de uma brincadeira de faz-de-conta. Talvez quem embarcasse com mais profundidade fosse eu mesma, de modo a ter sempre aquela roupa guardada e sempre arranjar um jeito de encaixar a Branca de Neve nas comemorações da semana da criança. Aquela roupa tinha sua magia toda própria, pois havia sido confeccionada a quarto mãos, por mim e minha mãe. Durante anos guardei aquela fantasia, e algumas vezes contentava-me em emprestá-la a alguma amiga que precisava da personagem em algum evento. Até que em uma de suas andanças a bela roupa foi e não mais voltou.

Esta semana reencontrei minha querida personagem, desta vez em tamanho bem menor e, dentro da roupa, uma menina linda, filha de uma amiga. A pequenina Branca de Neve tem o rostinho quase idêntico à sua mãe, mas foi a mim mesma que vi pedalando sua bicicletinha, vestida de princesa. Não foi a primeira vez que a filha de uma amiga fez-me recordar meus tempos de fantasia multicolorida. A primeira vez aconteceu anos mais cedo, no primeiro aniversário de outra pequenininha.

Diante da imagem da Branca de Neve ciclista, dei-me conta de que já não caibo na personagem, já não conseguiria fazer os pequenos embercarem no encanto de encontrar a princesa em carne e osso, mesmo assim, eu queria ter comigo aquele vestido, relíquia de um tempo fora do tempo, que talvez só exista dentro de mim.

sexta-feira, 26 de maio de 2006

Relembrando os avós


O texto de hoje foi escrito por uma grande amiga, que me permitiu transcreve-lo aqui. Obrigada, Claudinha!

As crônicas sobre avós me fez relembrar meus avós maternos e as inúmeras férias que passamos em sua casa, um sítio/fazenda no interior do Ceará. Era bom demais. Taí uma coisinha que me enche de saudade e que me faria voltar (sem pestenejar) no tempo, só pra reviver aqueles momentos: acordar cedo, tomar café com leite fresquinho, queijo de coalho da casa, tapioca com muuuiiiita manteiga, depois andar de cavalo, tomar banho de rio.

Gente do Céu! Os banhos de rio... eram bons demais. A gente precisava andar um pouco pra chegar até o melhor local pra banho. E o caminho era por dentro dos canaviais. Quantas vezes a gente num se arranhava todo? Mas no outro dia, lá estava a gente de novo fazendo a mesma trilha. E antes de entrar na trilha tinha que rezar:

"São Bento, água benta, Jesus Cristo no altar, saiam as cobras do caminho que eu quero passar"

Aí, pronto, podia ir sem medo que nenhuma cobra cruzaria nosso caminho.

E o almoço? Aquelas panelas de galinha caipira à cabidela!!! Nunca, mas nunca mesmo comi uma gallinha como as que a vovó fazia. E olhe que procuro, viu? Sempre que me falam de uma boa galinha caipira a cabidela vou lá conferir. Mas é impossível não lembrar e comparar com a da vovó. Tinha tb um bife que ela fazia com batatinha inglesa que era uma delícia. Só de lembrar dá água na boca. E sempre comíamos com banana. Ainda hoje tenho esse hábito. Ou banana ou rapadura.

Depois do almoço era a hora mais crítica, pois meus avós deitavam e a gente não podia dar um pio, senão.... aí a gente acabava indo pro estábulo que ficava do lado da casa. Mas mesmo assim a gente conversava sussurrando, pois o vovô tinha um sono muito leve e uma tal de dor de cabeça se fosse acordado.... Por isso, muitas vezes, para ser poupados de grandes "carões", a melhor opção era acompanhá-los na sesta. Aí a vovó enchia o alpendre de redes e a gente tirava aquele cochilo, com um ventinho tão forte que chegava a balançar a rede.

Normamelmente acordávamos com o som (barulhão, por sinal) da forrageira moendo cana pro gado. Aí, era hora do café com leite da tarde. Tinha uns bolachões que o vovô comprava na cidade que eram uma delícia. Nem mesmo em Fortaleza eu via delas pra vender. Depois da "merenda" era hora de ir andar estrada afora. Sempre com uma passadinha pela casa dos moradores que nos recebiam cheios de carinho, agrados... era um chazinho, um bombom azedinho ou piper, enqto eles repetiam uma ruma de história sobre um de nós qdo eramos "crianças", ou, aqueles mais antigos, sobre minha mãe ou meu tio, qdo jovens. Como vc colocou na sua crônica, eram histórias repetidas, mas sempre que ouviamos parecia ser a primeira vez. Aliás, muitas vezes a gente é que pedia: "conta aquela....."

Seis horas da tarde, todo mundo olhando pro céu, pra ver quem acharia a primeira estrela no céu. Quem achava tinha o direito de fazer a seguinte oração:

"Boa noite bela estrela, pela primeira que avistei. Fazei três cruzes no coração do fulano. Se eu ouvir porta bater, ele gosta de mim. Está pensando em mim se eu ouvir um assobio. Se cão latir, ele não gosta de mim".

Não raro, ouviamos um cão latir. Mas tb....

Pronto era hora de ir pra casa, pois o jantar já devia estar sendo servido. Isso mesmo. Cedinho.

Aí começava a sessão TV. A casa dos meus avós era a única que tinha TV pelas redondezas. Então era só começar a novela das seis pra sala começar a lotar. Vinha gente de todo canto assistir às novelas. Nós e nossos avós tinhamos lugar reservado. Os outros sentavam aonde dava. E era assim: na hora da novela, não podia ter zoada, pois o vovô, sempre enjoadinho com barulho, não podia perder uma cena... engraçado que nos intervalos todos saiam pro alpendre, pra conversar, pra fumar ou mesmo pra chupar um dindin, que a moça que morava com a vovó fazia e vendia pra ganhar uns trocados.

Na hora do jornal, não ficava quase ninguém. A maioria já ia embora. Nem esperava a novela das oito. A vovó, que tb não assistia o jornal, levava pro alpendre uma ruma de saca de feijão pra ser debulhado. Ali, formava uma roda ao redor dela e a gente mandava brasa debulhando feijão. Menina, era animado demais.

Bom, depois da novela das oito: rede. E íamos dormir sossegados pra no dia seguinte repetir tudo de novo, durante os trinta dias de férias, com poucas variações na rotina de um dia pro outro.

E, qdo acabavam as férias, que meus pais iam nos buscar, sempre era aquele chororô na despedida. Minha avó sempre se despediu da gente com tanta tristeza que parecia que nunca mais a veríamos....

Ah, tem uma parte especial que vou deixar proutro dia pra num encompridar muito, mas é o acesso até a fazenda, que naquele tempo era um verdadeiro Rally que fazíamos, por dentro de lamas, rios.... é muita história...

Como lhe disse, fiquei muito inspirada.

(Texto de Ana Cláudia)