quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Livros: apego e desapego meus

Essa é uma longa história, e somado a isso, tenho uma inabilidade inata para a síntese, portanto, prevejo uma narrativa exaustiva, mas preciso verbalizar isso – em breve terei de o fazer em ingles e este terá sido um bom ensaio.

Tudo começou quando eu tinha bem menos que cinco anos de idade. Aos cinco aprendi a ler, antes de frequenter a escola, mas essa é outra história. O que quero salientar é que antes mesmo de saber ler, os livros me causavam grande admiraçao e o encanto da palavra escrita me acompanha desde que me lembro de existir. Por isso, essa história começa nessa época, pois sem esse início nada teria tido o fim que teve.



Muito depois dos meus cinco anos de idade, mais precisamente quando eu tinha onze anos um evento triste marcou um momento de mudança. Estávamos mudando de casa e, como em qualquer mudança, as caixas, pacotes e outras formas de empacotamento ganharam todos os espaços da casa, ao mesmo tempo que muitas coisas que haviam sido guardadas ganharam o status de lixo. Acho que mudança sempre tem esse lado, como se ao mudar de casa renovássemos também nossos conceitos, ou desejássemos nos desapegar de coisas antigas e começar uma nova história no novo espaço. Mas neste caso isto trouxe um resultado inusitado.



Como num filme antigo em que malas iguais causam confusao e trocas insólitas – muitas vezes cômicas – o pacote do lixo era igualzinho a um pacote que continha livros, e nem preciso caixascontra o resto. Lá se foram todos os meus livros desde os primeiros anos de escola, junto com os livros de minha mae. Aquilo doeu tanto, que a única saída possível foi o silêncio. Nao falemos mais nisso, outros livros hao de vir, e de fato vieram, e vao-se os anéis ficam os dedos e assim por diante. Acho que de alguma forma superei aquilo sem muito trabalho, sem grandes elaboraçoes. Acho que até esqueci. Esqueci até o dia que lembrei. Mas por que lembrei? Bem, esta é outra história, muito mais dolorosa e complexa, pelo menos pra mim. Vamos a ela.

capa do Livro do DesassossegoQuando deixei o Brasil, vivenciei a experiência da mudança numa escala ampliada. Selecionar o que levaria comigo, o que deixaria para quando um dia voltasse, o que daria como presente a pessoas queridas, o que usaria para capitalizar e o que seria destinado ao lixo foi um trabalho que levou um longo tempo. Há coisas que sao fáceis de decidir, outras nem tanto. Comecei pelas mais fáceis e de certo modo lógicas, capitalizei o que podia, fiz as vezes de mamae noel for a de época e dstribuí outras tantas coisas, até que cheguei no lote mais difícil: meus livros. Talvez por causa daquele silêncio sobre os livros postos no lixo por engano e pela visao desconcertante do lixo que veio em lugar dos livros, eu tinha desenvolvido um apreço ainda maior pela literatura.
Nessa época eu já tinha formado uma biblioteca pessoal relativamente respeitável, em termos de quantidade, mas além disto, eu tinha adquirido algumas obras que me eram caras, caríssimas, sem preço.
Mais uma vez comecei a difícil tarefa pela parte mais fácil, e selecionei os livros que ficariam no Brasil, aguaradando meu retorno, guardados carinhosamente por uma amiga, que na verdade é uma irma. Assim, os livros que eram queridos, mas nao me eram essenciais ficariam sob a guarda da minha amiga, lado a lado com os livros de outra irma que também tinha deixado o Brasil e feito semelhante selecao. Alguns outros livros ficariam na minha casa, casa da minha mae. Mas havia um seleto grupo de livros que eu nao queria deixar pra trás. Eram ao todo cerca de 200 livros, talvez um pouco menos. Entre eles estavam Fernando Pessoa, Rubem Alves, Saramago, Paulo Freire, dentre outros. Estavam ali livros amados por motivos diversos. Alguns por terem sido autografados por seus autores, que tinham escrito nao uma mensagem generica qualquer, mas uma mensagem pessoal para mim, porque eram autores com quem eu tinha tido algum contato, como Alicia Fernandez, – uma das autoras que mais admiro e respeito – que foi minha professora, por exemplo e cuja mensagem (no autógrafo) tinha um significado profundamente importante pra mim. Outros livros erm amados simplesmente por já andarem comigo há muitos anos e terem presenciado todas as minhas metamorfoses físicas, intelectuais e espirituais. Outros eram fonte de inspiraçao, outros eram mestres sempre presentes, outros eram amigos silenciosos que falavam comigo mesmo que eu nao abrisse suas páginas.

Por mais que eu tente detalhar a importancia que cada um daqueles quase 200 livros tiveram ao longo da minha vida, eu jamais conseguiria verbalizar em plenitude, mas quero apenas expresser ainda que minimamente a extensao do que aquele evento me causou. caixas de mudanca
Um tal volume de livros era uma bagagem pesada demais para quem iria fazer uma viagem internacional, levando já bastante bagagem. Por isso, depois de longa conversa com cada um dos meus amigos de papel, os arrumei em três caixas de modo a estarem protos para viajarem via correio assim que eu mandasse o aviso.
Embarquei no vôo que me pôs no país onde vivo hoje deixando atrás de mim meus livros, sem saber que jamais os veria novamente.
Quando chegou o momento, mandei o aviso pra casa: podem enviar meus livros!
Duas semanas se passaram depois disso e ansiedade me corroía. Todos os dias a hora da passagem do carteiro era o divisor do tempo, como se depois daquela hora o dia perdesse o sentido e eu passasse a esperar ansiosamente pelo dia seguinte. Assim passaram-se vários dias, mais uma semana, mais outra. Os correios brasleiros regstravam o envio da remessa e a entrega aos servicos do Royal Mail, portanto, meus livros estavam em terras de Sua Majestade. Mas por que demoravam tanto? Essa pergunta nao encontrava resposta. O Royal Mail nao conseguia localizar a remessa, e eu me desesperava. Agora a esperança era que as três caixas voltassem para casa, que houvesse algum erro no endereco, alguma falha na entrega, e elas tivessem retornado para o remetente.


Quando eu já nao sabia o que pensar ou o que esperar, veio o momento da verdade. Foi quando caixas poliondasvi um dos pedacos inconfundiveis de uma das caixas, tremulando na mao de um vizinho, que a utilizava para abanar o fogo da churrasqueirinha no meio do quintal, numa tarde fria e triste, que a realidade despencou sobre a minha cabeça. A casa vizinha tinha o mesmo número, diferenciado apenas por uma letra, um bendito A que o carteiro nao viu ou ignorou. Sendo aquela casa uma especie de pensao que acolhia exilados politicos, uma comunidade formada por pessoas de nacionalidades diversas, as quais nem falavam o mesmo idioma – alguns eram inimigos politicos entre si – algumas sequer falavam ingles, nao foi difícil entender que alguém tenha recebido as três caixas acreditando que pertenciam a algum dos outros moradores.
No frigir dos ovos, deixando os detalhes de lado, o fato foi que alguém recebeu as caixas, alguém descobriu que elas nao pertenciam a nenhum morador, alguém decidiu abri-las e sendo o conteúdo inútil, jogou tudo no lixo.
Sim, durante alguns dias eu devo ter passado por aquela lixeira e nao ouvi o sussurrar de Pessoa a clamar que o tirasse dali. Provavelmente passei diversas vezes ao lado da lixeira que guardava um grande pedaço da minha própria vida, sem imaginar o que meus olhos nao eram capazes de ver.



Ao dia da triste verdade, segjuiram-se muitos outros dias, quase todos tristes, melancólicos, alguns revoltados, alguns angustiados, outros desesperados, até que foram chegando os dias conformados, os dias sossegados, e finalmente os alegres.






Muitas coisas já aconteceram depois disso, depois de um longo período em que eu nao sentia vontade de ler, nao queria mais comprar nenhum livro novo, depois de ir ao Brasil e trazer alguns dos livros que tinham sido guardados para a segunda remessa, depois de ganhar de pessoas amadas novas ediçoes de alguns dos livros perdidos, tive o grande privilégio de estar em Fortaleza ao mesmo tempo que Alicia. Falamos sobre perdas, extravios, reencontros. Ela autografou um livro que eu havia acabado de adquirir, e presenteou-me com outro, que além de ser obviamente de sua autoria era um exemplar de seu uso particular, com sublinhados, notas, suas marcas, sua presença. Foi um gesto cheio de significado.



Hoje já nao sofro aquela perda com a mesma intensidade de outrora. Aprendi que os objetos de papel e tinta se foram, mas que o essencial que eles me deram continuam bem dentro de mim. No princípio, eu rejeitava qualquer idéia de repor os livros perdidos, mas hoje tenho planos para algumas reposiçoes especiais, como por exemplo, todos os Pessoas terao de ser substituídos por versoes lusitanas, preferencialmente adquiridas em sebos de Lisboa. Nada de ediçoes brasileiras, nem ediçoes novas. Os da Alicia já foram repostos em grande estilo. Alguns jamais serao substituídos, e nem carecem de o ser. Estes permanecem guardados em mim, porém deixam fisicamente o espaço livre para as novas aquisiçoes, que já se iniciaram há algum tempo.
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