terça-feira, 27 de junho de 2006

Perfumes

    Ando sem tempo, ando sem inspiração para as crônicas diárias (minha isnpiração anda ocupada). Por esta razão, trago hoje uma crônica antiga, que escrevi em 2005.



Agora há pouco, um vento soprou trazendo consigo um perfume antigo, que estava guardado dentro de minhas lembranças. Inspirei o cheiro familiar profundamente, embora o odor estivesse apenas no vento da minha mente e não no ar onde, imersa, respiro. Uma vez, outra e mais outra. O perfume era tão presente, tão vívido e real que parecia estar mesmo impregnando o ambiente. A saudade por vezes faz destas artimanhas, exala seus cheiros e nos leva a outros tempos e outros lugares.

Montei nesse cavalo alado perfumado, completamente imaginário e totalmente real, e fui longe, muito longe do lugar onde me encontro fisicamente. Fui perto, muito perto de onde estão ancorados meus navios fugitivos. Um cheiro desses não nos visita todos os dias. Não com essa força, nem com essa realidade explícita em seus contornos implícitos. Esse poder de transportar os saudosos, de levá-los onde seus corpos já não chegam, de tocar o que suas mãos já não alcançam, é um poder absoluto e imbatível. Não há força maior que esta, realizar o mais sagrado desejo, sem contudo realizá-lo de fato, enquanto preenche a alma de uma realização que quase toca o real.



O perfume me levou à cozinha da minha infância, muito embora não fosse cheiro culinário que estivesse comigo. Na cozinha da minha meninice encontrei minha mãe, que rapidamente saiu para dar lugar ao meu irmão que fritava uns peixes miúdos que ele mesmo tinha pescado. Mas durou muito pouco a tal fritura, porque logo voltou minha mãe e encheu aquela cozinha com o cheiro magnífico do milho fervendo. Era a canjica que estava quase pronta. Mas o cheiro da canjica só esteve naquela cena, não veio fazer companhia ao outro perfume.

A cozinha antiga era escura, tinha móveis envelhecidos. Era cozinha pobre, cozinha do interior. Era a cozinha da minha casa. Mas a cozinha metamoforseou-se na cozinha da minha mãe, mas de outro tempo. Tempo de menina-moça, menina tornando-se mulher, aprendendo a arte dos sabores...

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Passaram-se muitos dias e aquele cheiro nunca mais voltou. Nem eu acertei o caminho das cozinhas; nem da mais antiga, nem da mais recente. Tinha ficado ali, parada, olhando para mim mesma a brincar de cozinheira, preparando quitutes no meio da tarde. Fiquei tão presa a aquela cena, que dali mesmo tive de voltar. Voltei para onde nunca saí, e pus-me à espera de algum odor mágico que me desse bilhete de viagem. Mas todos os cheiros que me rodearam desde então, foram os cheiros da realidade. Cheiro de chuva quando chove, cheiro de comida sendo preparada, quando a comida está sendo preparada, cheiro de umidade guardada em gavetas, quando se abre uma gaveta que guardou umidade. Cheiros de redundância realística, tão peculiar a tudo que é puramente real.

Talvez seja essa redundância que embriaga algumas mentes e as leva a mundos diversos, causando espanto aos amantes da realidade pura e simples. Embriagados dessa realidade pleonástica, que não fala nada além do que se vê, cheira ou prova, alguns fugitivos seguem rumos oblíquos, ouvem o que ninguém mais ouve, enxergam o que mais ninguém enxerga. Tocam sua música extraodinária e tudo o que os outros ouvem é um amontoado de notas. Ou pintam suas paisagens sublimes e tudo o que os outros vêem é uma tela que se enquadra nesta ou naquela categoria de arte.
Os fugitivos são solitários, ainda que sejam muitos. Ainda que se conheçam e saibam que há outros de sua espécie. Ainda que andem lado a lado, cada um foge numa direção diferente. Ainda que andem de mãos dadas, eles sabem que as mãos dadas sao traços da reallidade redundante da qual fogem. Almas dadas, almas entrelaçadas, isso sim, alguns fugitivos têm. Mas ainda assim, cada fugitivo sabe-se sozinho. Ninguém foge acompanhado.

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