terça-feira, 26 de agosto de 2008

Pra onde ela foi?

Sem tempo para escrever algo aqui, reedito um post antigo:


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Procuro por ela e não vejo seu sinal. Parece que ela sequer existiu algum dia. Lembro-me dela pisando firme, trilhando seu caminho de cabeça erguida, certa de seu valor e seu potencial, embora a dúvida sempre tenha lhe feito companhia. Ela andava de mãos dadas com amigos caros, com coolaboradores bondosos e pessoas com quem compartilhava amor. Guardava mistérios indecifráveis, nascidos da poesia pessoana e do seu jeito todo particular de ler e interpreter o mundo à sua volta. Muitos se sentiam inspirados por sua determinação, outros desafiados por seus enigmas, outros protegidos por sua coragem e força, e uns poucos, ofendidos por sua obstinação e teimosia. Pensando bem, ela não deve ter existido nunca, em lugar algum, fora da minha imaginação fértil. Alguém que guardava dentro de si uma escritora latente, uma artista cujos quadros surgiriam e viveriam de sombras, uma amiga fiel, uma sonhadora convicta, não poderia desaparecer como fumaça. Ela iria publicar seus livros, tocaria muitos corações com suas palavras, faria nascer um mundo onde seus semelhantes mais remotos poderiam habitar e escapar da solidão amarga dos incompreendidos, saltando por uma janela que traria a visão do céu de Ícaro sem o risco da queda fatal. Onde ela terá guardado seus propósitos, seus projetos de beleza? Teria ela delegado a alguém, as tarefas que tanto desejava fazer? Teria desaparecido sem cumprir sua missão? Diante de tantas indagações sem resposta sou forçada a reconhecer que ela só pode ter sido um sonho, do qual acordei sem me dar conta de que estava dormindo. Achego-me às janelas que ela tanto amava e percebo que todas trazem cortinas cerradas, como véus protetores de castidade. Quase posso vê-la ali, ao pé da janela da sala, tentando ver através da trama do tecido, com as mãos inertes, impedidas de decerrar o véu. Sei que ela esteve ali, que pôs as mãos nas cortinas, sem conseguir ver o dia claro que se mostrava do outro lado do pano. E ela que havia nascido para a luz, para a imensidão dos céus, para os vôos altos, ao achar-se privada da liberdade de viver sua essência, deixou-se dissolver, sentada numa cadeira fria, numa sala vazia, coberta pela penumbra ao pleno meio-dia, no meio da primavera. Encontrei a cadeira vazia e um perfume seco de lágrimas enchendo a sala. Nunca tinha sentido o cheiro de lágrima, mas o reconheci imediatamente, bastou-me sentar na cadeira e tocar o tecido que veste a janela. Fecho os olhos e ainda agora quase posso vê-la, trazia um livro numa das mãos, enquanto a outra fazia poesia sobre um qualquer papel e seus olhos mergulhavam na imensidão do oceano que ela planejava cruzar um dia. Vejo-a ora rodeada de pequeninos, ora rodeada de graúdos, ora diluída na multidão. Vejo-a tão nitidamente real e palpável que custa-me admitir que tenha sido uma ilusão. Volto ao dia em que ela, ainda menina tornando-se mulher, ficou apaixonada pela luz matinal que invadia o quarto de uma amiga mais afortunada, que tinha uma janela imensa, vestida apenas por um delicado véu transparente, cujo amarelo deixava-se invadir pela luminosidade, parecendo que a janela estava nua. Durante muito tempo, ela sonhou com o dia em que teria sua própria janela generosa. Abro os olhos e as janelas de hoje são tantas e tão generosas quanto aquela, mas ela não colheu essa generosidade de luz, graças a possíveis olhos intrusos que poderiam aproveitar a carona e entrar junto com o sol, capturar sua beleza e roubar seu coração. Foi nesse momento que ela desejou ardentemente transubstanciar-se em Rapunzel, protegida em sua torre, livre dos olhos ladrões de coração, à solta no mundo lá embaixo. No alto da torre poderia banhar-se de luz, mas não poderia alçar seu vôo vital rumo à amplidão e por isso desceu da torre antes mesmo de subí-la. Preferiu deixar-se dissolver, evaporar, sumir. Foi brincar de inexistir. Apesar disso, em mim permanence essa sensação de lhe ter tocado as mãos, beijado as faces. Sensação estranha diante de uma enorme ausência que não se contrapõe a uma presence, já que se trata de alguém que eu mesma criei, para sentar-me com ela, com as lembranças que compus. Ouço suas queixas tantas. Enfado-me de suas críticas, auto-críticas e reclamações. Deixo-me invadir por seu espírito sempre insatisfeito e seu hábito de falar minunciosamente de tudo, dando a cada ínfimo detalhe a relevância de um grande evento. Encanto-me com seu jeito exagerado de amar e desamar. Extremada no amor, como no ódio, no unir-se de forma visceral como no separar-se de forma definitiva. No crer, como no duvidar. Por ser extremada assim foi que me deixou apenas esta cadeira, esse cheiro seco de lágrima e as janelas cerradas. Seu hábito de optar pelos extremos levou-a a escolher a negação total e irrestrita, tão ampla que nada escapou à sua desaparição e desexistência, ou desistência do existir. Sobrei eu, vazia dos sonhos que aprendi com ela, vazia da mínima chance de realizá-los. Presa a este vazio de quem se olha no espelho à procura da própria cara e dá de cara com um vidro transparente sobre uma parede branca. Os olhos que haviam se preparado para visualizar o rosto não sabem o que fazer diante do branco inerte sem face. É assim o vazio que conheço desde que me sentei nesta sala escurecida por decreto. Assim, sem ela, nem me apetece abrir as cortinas. O bege do pano basta-me. Enxergo através de uma transparência que guardo em meu olhar, através da qual vejo a imagem daquela que não tendo existido dá-me a impressão falsa de que eu existo. Aturdida por pensamentos paradoxais, abandono a cadeira e vou à rua ao encontro da gente que povoa este mundo. Quem sabe encontro alguém que me dê notícias daquela que desapareceu como fumaça, deixando atrás de si um rastro de inexistência. Então vejo os rostos. Todos sem forma definida, fisionomias que não evocam lembrança qualquer que seja, cores e formas que não me lembram nada. Pergunto a uma jovem sem rosto se viu a minha desaparecida. Numa língua estranha ela me conta que viu uma estranha passar por esta rua, como se andasse perdida ou esquecida. Mas não se tratava da mesma pessoa, concluí. A perdida e esquecida chamava-se Maria e do pouco que podia ouvir de sua voz, não falava de beleza, nem mesmo de coisas racionais. Suas frases pareciam colchas de retalho que haviam sido montadas com pedaços unidos ao acaso, sem estreita relação entre cores e texturas. Nunca a ouviram falar de poesia e nem usava metáforas. Em nada se parecia com aquela que evaporara, que inventara o jogo da inexistência. Era outra pessoa.
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