terça-feira, 13 de março de 2007

Acabei de ler Cem Anos de Solidão

Era suposto que, diante deste fato, algo significativo acontecesse, porém, a despeito da suposição, o único fato significativo foi o término do livro propriamente dito, que trouxe tão simplesmente o significado insípedo do fato consumado.

Foram tantas as vezes que a repetição dos Aurelianos e José Arcádios tinham vencido minha vontade de seguir lendo, que o texto tornara-se mítico, dada a sua invencibilidade. O mito era apenas o reflexo de um paradigma existencial do qual me sentia presa. O modo cíclico com que os Buéndia construíram o século de solidão me era demasiadamente incandescente, dada a claridade da sua metáfora. Doía-me a visão perturbadora de mim mesma andando em círculos, desprendendo minhas energias para continuar viva e caminhando, contudo sem chegar a lugar algum.

Conheci cada um dos Aurelianos, cada um dos Arcádios, envelheci com Úrsula, estive amarrada ao castanheiro e sobrevivi até ao fim de Macondo. Acabei cem anos de solidão!

Agora pergunto-me se consigo olhar essa metáfora sem apertar os olhos astigmaticamente ou se sua claridade oferece-me a possibilidade de enxergar melhor o caminho que se faz à medida que ando. A julgar pelas pegadas que deixo, sempre às minhas costas, e pela ausência de pegadas a seguir diante de mim, concluo que saí do círculo vicioso a que andei cativa.

Sim, é um fato: acabei Cem Anos de Solidão!







Escrita em 2003, Portugal
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