terça-feira, 23 de maio de 2006

Avós e quartos

E por falar em avó...

Minha mãe é uma avó zelosa, que muitas vezes faz as vezes de mãe dos netos. Não somente de forma simbólica, mas no sentido literal, exercitando a difícil tarefa de substituir uma mãe ausente.

Hoje fui conversar com avó da Adri, lá no quartinho dos fundos, pulando as pedrinhas e todos os sinais do tempo. Sentamos juntas e com ela encontrei minha avó, mãe da minha mãe. Aquela que foi uma menina sofrida, criada sem mãe, por uma tia sisuda e distante. Aquela que não sabia o que fazer quando um filho pequeno a chamava no meio da noite, a que não abraçava, não beijava. E estranhamente fui encontrá-la ao lado de uma avó terna e carinhosa. A avó terna abria um album de fotos antigas e dizia: veja, esta é você, esta outra é sua primeira filha, estes são seus outros filhos…. E minha avó apertava os olhos tentando se reconhecer nas fotos que a avó carinhosa apontava, mas era a foto da primeira filha que a intrigava.

Ficamos ali, as três olhando fotos amareladas em meio a ramos de plantinhas parasitas que invadiram o quarto todo. Quando saí de lá, era minha mãe que segurava minha mão. Ou talvez fosse eu que segurasse a dela.

Sentei-me aqui, exatamente onde estou, em meu quarto, tão longe dos olhos de minha mãe. Seu olhar tristonho que a tecnologia me permitiu ver no dia das mães ainda está aqui. Foi uma avó desapontada que eu vi. Havia tentado suprir a falta da mãe e o neto retribuía o gesto com hostilidade e cobranças.

Minha mãe tem cada vez mais o estereótipo clássico da vovó e vendo de longe dói-me tanto não poder tocar-lhe a brancura dos cabelos. Eu queria renovar o antigo album, colar ali fotos de momentos felizes. Queria revelar uma foto em que o olhar de minha mãe refletisse desejo, sonho, vida.

Fico agora, neste quarto distante, que não guarda resquício algum de memória, não segreda fatos vividos no passado, nem entende nada de avós que trazem o passado de volta para alimentar as raízes dos netos. Estou aqui.
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