sexta-feira, 26 de maio de 2006

Relembrando os avós


O texto de hoje foi escrito por uma grande amiga, que me permitiu transcreve-lo aqui. Obrigada, Claudinha!

As crônicas sobre avós me fez relembrar meus avós maternos e as inúmeras férias que passamos em sua casa, um sítio/fazenda no interior do Ceará. Era bom demais. Taí uma coisinha que me enche de saudade e que me faria voltar (sem pestenejar) no tempo, só pra reviver aqueles momentos: acordar cedo, tomar café com leite fresquinho, queijo de coalho da casa, tapioca com muuuiiiita manteiga, depois andar de cavalo, tomar banho de rio.

Gente do Céu! Os banhos de rio... eram bons demais. A gente precisava andar um pouco pra chegar até o melhor local pra banho. E o caminho era por dentro dos canaviais. Quantas vezes a gente num se arranhava todo? Mas no outro dia, lá estava a gente de novo fazendo a mesma trilha. E antes de entrar na trilha tinha que rezar:

"São Bento, água benta, Jesus Cristo no altar, saiam as cobras do caminho que eu quero passar"

Aí, pronto, podia ir sem medo que nenhuma cobra cruzaria nosso caminho.

E o almoço? Aquelas panelas de galinha caipira à cabidela!!! Nunca, mas nunca mesmo comi uma gallinha como as que a vovó fazia. E olhe que procuro, viu? Sempre que me falam de uma boa galinha caipira a cabidela vou lá conferir. Mas é impossível não lembrar e comparar com a da vovó. Tinha tb um bife que ela fazia com batatinha inglesa que era uma delícia. Só de lembrar dá água na boca. E sempre comíamos com banana. Ainda hoje tenho esse hábito. Ou banana ou rapadura.

Depois do almoço era a hora mais crítica, pois meus avós deitavam e a gente não podia dar um pio, senão.... aí a gente acabava indo pro estábulo que ficava do lado da casa. Mas mesmo assim a gente conversava sussurrando, pois o vovô tinha um sono muito leve e uma tal de dor de cabeça se fosse acordado.... Por isso, muitas vezes, para ser poupados de grandes "carões", a melhor opção era acompanhá-los na sesta. Aí a vovó enchia o alpendre de redes e a gente tirava aquele cochilo, com um ventinho tão forte que chegava a balançar a rede.

Normamelmente acordávamos com o som (barulhão, por sinal) da forrageira moendo cana pro gado. Aí, era hora do café com leite da tarde. Tinha uns bolachões que o vovô comprava na cidade que eram uma delícia. Nem mesmo em Fortaleza eu via delas pra vender. Depois da "merenda" era hora de ir andar estrada afora. Sempre com uma passadinha pela casa dos moradores que nos recebiam cheios de carinho, agrados... era um chazinho, um bombom azedinho ou piper, enqto eles repetiam uma ruma de história sobre um de nós qdo eramos "crianças", ou, aqueles mais antigos, sobre minha mãe ou meu tio, qdo jovens. Como vc colocou na sua crônica, eram histórias repetidas, mas sempre que ouviamos parecia ser a primeira vez. Aliás, muitas vezes a gente é que pedia: "conta aquela....."

Seis horas da tarde, todo mundo olhando pro céu, pra ver quem acharia a primeira estrela no céu. Quem achava tinha o direito de fazer a seguinte oração:

"Boa noite bela estrela, pela primeira que avistei. Fazei três cruzes no coração do fulano. Se eu ouvir porta bater, ele gosta de mim. Está pensando em mim se eu ouvir um assobio. Se cão latir, ele não gosta de mim".

Não raro, ouviamos um cão latir. Mas tb....

Pronto era hora de ir pra casa, pois o jantar já devia estar sendo servido. Isso mesmo. Cedinho.

Aí começava a sessão TV. A casa dos meus avós era a única que tinha TV pelas redondezas. Então era só começar a novela das seis pra sala começar a lotar. Vinha gente de todo canto assistir às novelas. Nós e nossos avós tinhamos lugar reservado. Os outros sentavam aonde dava. E era assim: na hora da novela, não podia ter zoada, pois o vovô, sempre enjoadinho com barulho, não podia perder uma cena... engraçado que nos intervalos todos saiam pro alpendre, pra conversar, pra fumar ou mesmo pra chupar um dindin, que a moça que morava com a vovó fazia e vendia pra ganhar uns trocados.

Na hora do jornal, não ficava quase ninguém. A maioria já ia embora. Nem esperava a novela das oito. A vovó, que tb não assistia o jornal, levava pro alpendre uma ruma de saca de feijão pra ser debulhado. Ali, formava uma roda ao redor dela e a gente mandava brasa debulhando feijão. Menina, era animado demais.

Bom, depois da novela das oito: rede. E íamos dormir sossegados pra no dia seguinte repetir tudo de novo, durante os trinta dias de férias, com poucas variações na rotina de um dia pro outro.

E, qdo acabavam as férias, que meus pais iam nos buscar, sempre era aquele chororô na despedida. Minha avó sempre se despediu da gente com tanta tristeza que parecia que nunca mais a veríamos....

Ah, tem uma parte especial que vou deixar proutro dia pra num encompridar muito, mas é o acesso até a fazenda, que naquele tempo era um verdadeiro Rally que fazíamos, por dentro de lamas, rios.... é muita história...

Como lhe disse, fiquei muito inspirada.

(Texto de Ana Cláudia)
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